Fazer terapia na sua língua materna: porque é que importa
Há uma coisa que quase todos os emigrantes portugueses descobrem, mais cedo ou mais tarde: é possível construir uma vida inteira noutra língua — trabalhar, fazer amigos, apaixonar-se, discutir, resolver os problemas do dia a dia — e, ainda assim, sentir que há uma parte de si que só existe em português. É a língua em que sonha, em que conta os números de cabeça, em que a sua mãe lhe chamou pelo nome. É a língua onde vivem as suas emoções mais antigas.
E é exatamente por isso que a língua em que faz terapia não é um detalhe.As emoções não se traduzem — vivem-se numa língua
Quando aprendemos uma segunda língua já adultos, ela instala-se numa camada diferente. Serve-nos bem para o pensamento e para a função, mas cria uma distância subtil em relação ao que sentimos. Muitos emigrantes descrevem exatamente isto: em inglês, alemão ou francês conseguem falar de um problema difícil quase como se falassem de outra pessoa. Há um amortecedor. E, para o dia a dia, esse amortecedor até é útil.
Só que, em terapia, esse amortecedor é precisamente o que não queremos. O trabalho terapêutico acontece quando conseguimos chegar ao que dói sem filtro, sem primeiro ter de o converter para uma língua que o arruma à distância. Falar do luto, da culpa, da vergonha ou do medo na língua em que essas emoções se formaram é ir direto ao essencial. Na língua materna não descrevemos o sentimento — estamos dentro dele.O que se perde na tradução (mesmo quando falamos bem a língua)
Falar fluentemente uma língua estrangeira não é o mesmo que sentir nela. Em sessão, isto nota-se de formas concretas: procuramos a palavra certa e escolhemos a que existe, não a que é exata; simplificamos uma emoção complicada porque não temos o vocabulário fino para a dizer; evitamos um assunto inteiro porque explicá-lo daria trabalho a mais. Sem darmos por isso, a terapia adapta-se aos limites da língua, em vez de ir onde precisa de ir.
Em português, nada disto acontece. Não há esforço de tradução a roubar energia ao que interessa. Pode usar a palavra imperfeita, a expressão da sua terra, aquilo que só faz sentido para quem cresceu como você — e ser compreendido à primeira.Não é só a língua — é a cultura que vem com ela
Uma boa parte do que traz um emigrante português à terapia está enraizada numa cultura que um psicólogo local, por muito competente que seja, não partilha.
Há a saudade — que nem sequer tem tradução, e que quem nunca a sentiu tende a confundir com simples nostalgia. Há a relação com a família, o peso do dever para com os pais que envelhecem do outro lado do mundo, a culpa de ter partido, a expectativa silenciosa de que "correu tudo bem". Há a forma portuguesa de lidar com o sofrimento — muitas vezes contida, adiada, guardada. E há os pequenos silêncios e subentendidos que, entre dois portugueses, não é preciso explicar.
Um terapeuta do país de acolhimento teria de aprender tudo isto para o poder trabalhar consigo. Com uma psicóloga portuguesa, é o ponto de partida.Conheço também o mundo profissional em que vive
Há ainda uma segunda distância, além da cultural: a do mundo do trabalho lá fora. Antes de me dedicar em exclusivo à psicologia clínica, trabalhei durante 16 anos numa multinacional americana, com colegas e equipas de todo o mundo. E eu própria conheço isto de dentro: vivi em Londres e, durante um ano, fiz a ponte semanal para Frankfurt, a trabalhar num país e a regressar a casa noutro. Sei o que é chegar a uma cidade estrangeira, recomeçar do zero e sentir a distância de tudo o que nos é familiar. Conheço por dentro a exigência de um ambiente empresarial internacional, a pressão de corresponder noutra língua, os códigos que ninguém explica e o desgaste silencioso que isso acarreta.
Por isso, quando me fala do seu contexto profissional — do escritório multicultural, da chefia estrangeira, do ritmo, do medo de não ser suficiente num sítio que não é o seu — não precisa de me explicar como é. Já lá estive. E isso permite ligar aquilo que sente ao ambiente concreto em que vive, sem ter de traduzir nem o idioma nem a experiência.A identidade suspensa entre dois países
Muitos dos temas que trago à terapia com emigrantes portugueses giram em torno da mesma questão de fundo: viver entre dois lugares sem pertencer inteiramente a nenhum. A decisão sempre em aberto entre ficar e regressar. A sensação de já não ser bem de lá, mas ainda não ser daqui. A solidão de quem tem uma vida cheia mas poucos vínculos verdadeiramente profundos. A dificuldade de explicar a quem ficou aquilo que se vive, e a quem está por perto aquilo de onde se veio.
São experiências difíceis de trabalhar com alguém que nunca as viveu de dentro. E são o centro do trabalho que faço.Não se trata de o psicólogo local ser mau
Nada disto significa que os profissionais do seu país de acolhimento não sejam bons — muitos são excelentes. Significa apenas que há uma necessidade específica, e que ela é legítima. Escolher fazer terapia em português não é escolher menos: é escolher o contexto em que consegue trabalhar com menos atrito e mais profundidade. Para muitos emigrantes, é a diferença entre uma terapia que funciona e uma que fica sempre a meio caminho.Para si, onde quer que esteja
Faço consultas de psicologia online, em português, para portugueses espalhados pelo mundo — na Europa, nas Américas, em África ou mais longe. As sessões chegam a si onde estiver, com horários pensados para os diferentes fusos.
Se emigrou e sente que há coisas que só conseguiria dizer verdadeiramente na sua língua, talvez seja esse o sinal de que a terapia certa para si é em português.Conheça como funcionam as consultas online para portugueses no estrangeiro.