Porque é que perco a paciência com os meus filhos?

Levantou a voz outra vez. Talvez tenha dito algo de que já se arrependeu antes de acabar a frase. E agora, com a criança já a dormir, fica a sensação de ter falhado — e a pergunta que não larga: que tipo de pai, ou de mãe, faz isto?

Se é isto que sente ao fim do dia, vale a pena começar por aqui: perder a paciência não é o que define a sua parentalidade. O que a define é muito mais o que acontece a seguir.

Não é a falha que marca. É a ausência de reparação

Existe a ideia de que um bom pai ou uma boa mãe não perde a cabeça. Não é verdade — e nenhuma criança precisa de um adulto que nunca falha. O que constrói segurança não é a ausência de rupturas, mas a experiência repetida de que, depois da ruptura, o adulto volta.

Voltar a sentar-se ao lado. Reconhecer que se perdeu a paciência, que a culpa não foi da criança, que se gosta dela na mesma. Não é humilhar-se — é ensinar que uma relação aguenta o conflito e sobrevive a ele. Uma criança que nunca viu um adulto reparar não aprende a reparar.

O que está esgotado não é a técnica. É o recurso

Quem perde a paciência com frequência costuma ir procurar métodos: contar até dez, sair da divisão, respirar. Ajuda — mas só até certo ponto. Porque no momento em que se perde a cabeça, o problema raramente é falta de técnica. É que já não resta nada por dentro.

Uma criança em desregulação não se acalma por raciocínio; acalma-se por contágio, apoiada na calma de quem está ao lado. E não se pode emprestar uma calma que não se tem. Um adulto exausto, com a sua própria tensão em cima, não consegue regular um filho por mais que saiba como. Não é falha de carácter. É o recurso no fim.

Porque é que reage assim — e de onde vem

Muitas vezes, o que faz saltar não é bem o copo entornado ou a birra. É o que aquilo toca. O cansaço acumulado, a exigência que se traz de todo o lado, e às vezes ecos de como se foi tratado em criança — o que se jurou não repetir e que, em segundos de esgotamento, sai à mesma.

Perceber o que se ativa nesses momentos, e de onde vem, é o que permite responder de outra forma. Não por mais força de vontade, mas por compreender o que estava, de facto, a acontecer.

Como a psicoterapia ajuda

O trabalho não é sobre a criança — é sobre quem cuida. Ao compreender o que o esgota, o que dispara a reação e a culpa que vem depois, torna-se possível reagir de outro lugar nos dias em que já não tem nada para dar. Muda a forma como o adulto responde, e muda o clima inteiro em que a criança cresce — sem que ela tenha de ser apontada como o problema.

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