De onde vem a forma como nos vemos: a autoestima começa na infância
A voz que nos critica por dentro foi, um dia, aprendida.
Porque é que algumas pessoas, perante o mesmo erro, se encolhem em autocrítica feroz enquanto outras seguem em frente? Grande parte da resposta está mais atrás do que pensamos — na forma como aprendemos, muito cedo, a olhar para nós próprios. A educadora e psicóloga Dorothy Briggs, num livro clássico sobre o tema, deixou uma ideia que continua a iluminar o trabalho com adultos: a autoimagem é talvez a característica mais determinante de uma pessoa, e ela começa a formar-se na infância.
A criança como espelho
Briggs usa uma imagem poderosa: a criança constrói a ideia de quem é a partir do que vê refletido nos olhos de quem a rodeia. Não a partir do que lhe dizem em teoria, mas do que sente nas reações do dia a dia — no tom de voz, no olhar, na forma como é (ou não é) ouvida. Se o reflexo que recebe é de aceitação e valor, interioriza “sou digno de amor”; se é de crítica, indiferença ou impaciência constante, pode interiorizar “há algo de errado comigo”.
Essa imagem inicial não desaparece com a idade. Torna-se a lente através da qual a pessoa adulta interpreta tudo o resto.
Sentir-se amado não é o mesmo que ser amado
Um dos pontos mais subtis de Briggs é este: não basta amar uma criança — é preciso que ela se sinta amada. Muitos pais amam profundamente os filhos e, ainda assim, por mil razões (stress, exigência, dificuldade em expressar afeto, as suas próprias feridas), a mensagem que chega pode ser outra. Isto explica porque é que tantos adultos competentes e bem-sucedidos carregam, mesmo assim, uma sensação persistente de não serem suficientes: a lente formou-se cedo, e o sucesso de hoje não a corrige automaticamente.
O que isto explica na vida adulta
Compreender esta origem ajuda a fazer sentido de padrões que de outra forma parecem irracionais:
• A autocrítica que não bate certo com os resultados reais.
• A dificuldade em receber elogios ou afeto.
• A sensação de que se vale pelo que se faz, e não pelo que se é.
• O perfeccionismo como tentativa de “merecer” finalmente aprovação.
Nenhum destes padrões é um defeito de carácter. São o eco de uma lente que se formou quando ainda não tínhamos como escolher.
A boa notícia: a lente pode ser repolida
Aqui está o essencial — e o mais esperançoso. A autoimagem não é um destino gravado em pedra. O que se aprendeu pode ser revisto. Em adulto, é possível reconhecer de onde vem aquela voz interna, perceber que ela reflete experiências antigas e não a verdade sobre quem somos, e construir, aos poucos, uma relação mais compassiva e mais justa connosco próprios.
Esse é, muitas vezes, um dos trabalhos mais transformadores em psicoterapia: não culpar o passado nem os pais, mas compreender a origem da nossa autoimagem para deixar de viver refém dela.