Os jogos que jogamos: porque repetimos os mesmos padrões nas relações

Há conversas que parecem ter sempre o mesmo fim.

Já reparou que certas discussões acabam sempre da mesma maneira? Que com determinada pessoa cai sempre no mesmo papel — o que resolve, o que cede, o que se irrita? Há mais de meio século, o psiquiatra Eric Berne deu um nome a este fenómeno e ajudou a perceber porque é que ele acontece. A abordagem chama-se Análise Transacional, e algumas das suas ideias continuam surpreendentemente úteis para compreender as nossas relações.

Três “vozes” dentro de nós

Berne propôs que, em cada interação, funcionamos a partir de um de três estados internos:

•        O Pai — atitudes, regras e tons de voz que interiorizámos das figuras que nos criaram. É a voz que critica ou que protege (“devias”, “tem cuidado”).

•        O Adulto — a parte que observa a realidade do presente, pondera e responde de forma equilibrada, sem ser dominada pela emoção nem por regras automáticas.

•        A Criança — as emoções, impulsos e reações que vêm da nossa infância. Pode ser espontânea e criativa, mas também magoada, birrenta ou submissa.

Não são fases nem tipos de pessoa: são estados que se alternam em nós ao longo do dia. O problema surge quando reagimos sistematicamente a partir do Pai ou da Criança em situações que pediam o Adulto.

O que é, afinal, um “jogo”

Para Berne, um jogo psicológico não tem nada de divertido. É uma sequência de interações, repetida e quase automática, que esconde um motivo por baixo do que está à superfície — e que termina, previsivelmente, com uma emoção desagradável mas familiar: a frustração, a mágoa, a sensação de injustiça.

Um exemplo clássico: alguém queixa-se de um problema e pede conselhos. A cada sugestão responde “sim, mas...” e explica porque é que não resulta. No fim, ninguém ajudou, e a pessoa confirma a ideia de que “não há solução”. O objetivo aparente era resolver; o resultado real foi outro.

Porque é que os repetimos

Estes padrões repetem-se porque, por mais desconfortáveis que sejam, são conhecidos — e o conhecido dá uma estranha sensação de segurança. Muitas vezes confirmam uma ideia antiga que temos de nós próprios ou dos outros (“ninguém me ajuda”, “tenho sempre de ser eu”). O desfecho negativo, por paradoxal que pareça, encaixa numa narrativa que já trazemos.

Sair do automático

A ideia central, e a mais libertadora, é esta: assim que reconhecemos o padrão, deixamos de estar totalmente à sua mercê. Perceber a partir de que “voz” estamos a reagir, e que desfecho um certo padrão tende a ter, abre espaço para responder de outra forma — a partir do Adulto, em vez do piloto automático.

Compreender estes mecanismos é, muitas vezes, parte do trabalho psicológico: não para nos julgarmos, mas para deixarmos de repetir aquilo que já não nos serve.

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