Dor e sofrimento não são a mesma coisa

Imagine duas pessoas a viver o mesmo contratempo — uma crítica no trabalho, uma desilusão, um plano que falhou. Uma sente o desconforto, fica em baixo durante um tempo, e depois segue. A outra fica presa: dá voltas ao assunto durante dias, revê a cena vezes sem conta, antecipa o pior, culpa-se. O acontecimento foi o mesmo. O sofrimento, não.

Muitas vezes, o que mais nos pesa não é o que nos acontece, mas o que fazemos com isso na nossa cabeça.

A diferença entre dor e sofrimento

Vale a pena separar duas coisas que costumamos misturar:

  • A dor é, muitas vezes, inevitável. Uma perda, uma doença, uma rejeição, uma fase difícil — há momentos que doem, e é suposto doerem. Essa dor é legítima e precisa de ser sentida.

  • O sofrimento acrescentado é a camada que, por vezes, construímos por cima da dor: o remoer sem fim, o catastrofizar, a autocrítica, a luta contra aquilo que já não podemos mudar, a preocupação antecipada com o que ainda nem aconteceu.

A boa notícia é que esta segunda camada — ao contrário da primeira — pode ser reconhecida e trabalhada.

Um aviso importante

Isto não quer dizer "pensa positivo" nem "a culpa do teu sofrimento é tua". Seria injusto, e não é verdade. Há dores que se vivem, não se "resolvem com atitude". Quem está em luto, quem passou por algo traumático, quem atravessa uma depressão, não está a sofrer por escolha nem por falta de vontade.

A questão não é deixar de sentir. É perceber que, muitas vezes, somos nós a alimentar o sofrimento sem darmos por isso — e que isso se pode aprender a fazer de outra maneira.

De onde vem o sofrimento que podemos evitar

Na prática, este sofrimento extra costuma alimentar-se de alguns hábitos mentais:

  • ruminar o mesmo pensamento em círculo, sem chegar a lado nenhum;

  • antecipar desastres que ainda não aconteceram (e que, na maioria das vezes, não acontecem);

  • autocriticar-se com uma dureza que nunca usaríamos com um amigo;

  • lutar contra factos que já não se podem mudar, em vez de lidar com eles.

São automatismos, não defeitos. E, como qualquer automatismo, podem ser desmontados — com tempo e com método.

O que muda quando se trabalha isto

Em terapia, é possível aprender a notar estes padrões no momento em que aparecem, a questioná-los em vez de os obedecer, e a tratar-se com mais compreensão. Não se trata de eliminar a dor da vida — isso ninguém pode prometer —, mas de deixar de lhe somar um peso que não precisa de lá estar.

Muitas pessoas descobrem, com esse trabalho, que continuam a sentir o que a vida traz, mas deixam de ficar reféns disso.

Se isto lhe fala de perto

Se reconhece em si essa tendência para remoer, para antecipar o pior ou para se castigar — e se isso lhe está a roubar tranquilidade —, pode ser útil trabalhá-lo num espaço seu. A primeira consulta é, antes de mais, uma conversa, sem compromisso de continuidade, para perceber o que está a viver e o que pode ajudar.

Pode marcar a sua primeira consulta abaixo. Se preferir esclarecer alguma dúvida antes, também pode escrever.

Anterior
Anterior

De onde vem a forma como nos vemos: a autoestima começa na infância

Próximo
Próximo

Porque queremos quem foge - e fugimos de quem nos quer