A culpa de ser feliz: porque nos sabotamos quando as coisas correm bem

Há quem trave precisamente quando estava quase a chegar.

Conhece a sensação de, mal as coisas começam a correr bem, algo dentro de si parecer puxar o travão? Uma promoção que se adia inconscientemente, uma relação boa que se estraga sem se perceber porquê, uma felicidade que se torna estranhamente desconfortável. Há um livro que oferece uma explicação tão simples quanto perturbadora para isto: Crimes Imaginários, dos psicólogos Lewis Engel e Tom Ferguson.

Uma culpa que não sabemos que temos

A ideia central é a de uma culpa escondida — uma culpa que sentimos, sem saber, em relação aos nossos pais ou a outras pessoas que amamos. Algures na infância, muitos de nós formámos uma convicção silenciosa: a de que, se fôssemos felizes demais, bem-sucedidos demais, ou demasiado independentes, estaríamos a magoar ou a trair quem amamos.

Não é uma decisão consciente. É uma crença formada por uma criança que tentava dar sentido ao seu mundo — e que ficou. Os autores chamam-lhe “crime imaginário” porque, na realidade, nenhum crime foi cometido. Mas a culpa é real, e a punição que nos infligimos também.

Os “crimes” que julgamos ter cometido

Esta culpa costuma organizar-se à volta de alguns temas reconhecíveis:

•        Ultrapassar. O receio de ter mais sucesso, mais felicidade ou mais realização do que um pai, uma mãe ou um irmão — como se isso fosse uma deslealdade.

•        Abandonar. A sensação de que ser independente, partir, viver a própria vida, é deixar para trás quem precisava de nós.

•        Ser desleal. Sentir que ser diferente da família — nos valores, nas escolhas, no caminho — é uma espécie de traição.

Como nos punimos

O problema é que, para “pagar” estes crimes imaginários, sabotamo-nos. A autopunição assume formas que parecem inexplicáveis: ansiedade e desânimo persistentes, dificuldade em deixar-nos ser felizes, autossabotagem na carreira ou nas relações, ou a estranha incapacidade de aproveitar aquilo que conquistámos. No fundo, mantemo-nos pequenos para não “magoar” ninguém — mesmo que ninguém nos tenha pedido isso.

Reconhecer para deixar de pagar

A parte libertadora é esta: estes são crimes imaginários. A criança que formou estas crenças estava a proteger quem amava, à sua maneira. Mas a pessoa adulta pode olhar para elas, perceber de onde vêm, e questionar se ainda fazem sentido — porque, quase sempre, não fazem. A sua felicidade não custa nada a ninguém.

Reconhecer estes padrões é, muitas vezes, parte do trabalho psicológico: não para culpar os pais ou o passado, mas para deixar de pagar uma dívida que nunca existiu de verdade.

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