Atravessar o medo

Em quase todas as histórias que nos marcaram, há um momento em comum: o protagonista tem de entrar na floresta escura. Não a contornar, não esperar que desapareça — atravessá-la. E é sempre aí, no meio do que mais temia, que alguma coisa muda.‍ ‍

Não é por acaso que estas histórias nos acompanham há séculos. Elas dizem-nos, em linguagem simbólica, algo que a psicologia confirma: o caminho para o outro lado do medo passa por dentro dele, não por fora. ‍

Fugir do medo alimenta-o

Quando algo nos assusta, o instinto é evitar. Evitamos a conversa difícil, o convite, a decisão, o pedido de ajuda. E no imediato sentimo-nos aliviados — por isso repetimos.

Mas há um preço escondido nesse alívio. Cada vez que fugimos, ensinamos o cérebro que aquilo era mesmo perigoso. O medo, em vez de encolher, cresce, e o território onde nos sentimos seguros vai ficando cada vez mais pequeno. É este o mecanismo silencioso que está por trás de grande parte da ansiedade: não é o perigo em si, é a fuga repetida daquilo que tememos.

As histórias mostram-nos outro caminho

Nenhum herói vence ficando em casa. E há um detalhe que costuma passar despercebido: o herói quase nunca começa forte. Começa pequeno, perdido, assustado. Não é alguém sem medo — é alguém que avança apesar dele. ‍

É essa, afinal, a verdadeira definição de coragem. Não a ausência de medo, mas a decisão de dar um passo com ele ao lado. E é a travessia, não a partida, que transforma quem a faz.

Precisamos de sentido e de esperança para atravessar

O que permite a alguém enfrentar o difícil não é só força de vontade — é acreditar que aquilo por que passa faz parte de um caminho, e não de um beco sem saída.

Damos sentido à nossa vida contando-a como uma história. E quando conseguimos ver o capítulo difícil como parte de algo maior — uma etapa, uma passagem, não o fim —, tornamo-nos capazes de o viver sem nos perdermos nele. A esperança não é ingenuidade: é o que nos mantém a caminhar quando a floresta ainda está escura.

O que a psicoterapia pode fazer

Em consulta, é um pouco isto que fazemos juntos: aproximar-se, aos poucos e em segurança, daquilo que tem evitado; distinguir o perigo real do medo aprendido; e reescrever a história que anda a contar a si — de uma em que o medo manda, para uma em que é quem decide.

Enfrentar o medo raramente é tão assustador como imaginar enfrentá-lo. É a antecipação que paralisa; a travessia, feita passo a passo, é quase sempre mais suportável do que a fuga prolongada.

Se há uma floresta que anda a contornar

Se há uma conversa, uma decisão ou um pedido de ajuda que anda a adiar há demasiado tempo, talvez não seja falta de força. Talvez seja apenas o momento de dar o primeiro passo — e não tem de o dar sem apoio.

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