Porque queremos quem foge - e fugimos de quem nos quer

Há um desequilíbrio no centro de muitas relações.

Já reparou como, às vezes, quanto mais alguém nos quer, menos nos interessa — e quanto mais inalcançável é outra pessoa, mais a desejamos? Não é defeito de carácter nem azar. O psicólogo Dean Delis deu-lhe um nome: o paradoxo da paixão. E perceber como funciona pode mudar a forma como vivemos as nossas relações.

Os dois lados de uma balança

Delis parte de uma constatação simples: quando duas pessoas se envolvem, raramente amam exatamente na mesma medida. Quase sempre, uma fica mais “apaixonada” do que a outra. Isto cria dois papéis:

•        O que ama mais (o “one-down”) sente-se inseguro, ansioso, com medo de perder o outro — e quanto mais se esforça e persegue, mais vulnerável fica.

•        O que ama menos (o “one-up”) sente-se no controlo, mas também insatisfeito, sufocado, por vezes culpado — e tende a afastar-se.

E é aqui que está a armadilha: quanto mais um persegue, mais o outro foge. O esforço desesperado de um alimenta o afastamento do outro, e a relação entra num ciclo que magoa os dois.

O que muita gente não sabe

A descoberta mais importante de Delis é esta: estes papéis não são quem somos — são onde estamos. A mesma pessoa pode ser o “one-up” numa relação e o “one-down” noutra. Não é uma característica fixa da personalidade; é uma posição na balança de uma relação concreta. Isto é libertador, porque significa que pode mudar.

Sair da armadilha

Curiosamente, a solução é quase sempre o contrário do instinto. Quem persegue (one-down) tende a perseguir ainda mais — quando o que ajudaria seria recuperar alguma distância saudável, reinvestir em si próprio, deixar de orbitar à volta do outro. Quem foge (one-up) tende a afastar-se ainda mais — quando experimentar uma aproximação cuidadosa poderia reequilibrar a relação.

E há uma ferramenta central: comunicar sem acusar. Em vez de “tu nunca ligas, só pensas em ti”, dizer “sinto-me sozinho quando passamos dias sem falar”. A mesma realidade, mas dita de uma forma que aproxima em vez de afastar.

Quando faz sentido procurar ajuda

Estes padrões são tão automáticos que é difícil vê-los de dentro — e ainda mais difícil mudá-los sozinho, no calor da relação. Um espaço terapêutico ajuda a reconhecer em que posição está, a compreender o que alimenta o desequilíbrio, e a encontrar formas de o corrigir — quer para reconstruir a relação, quer para decidir, com clareza, que não é a relação certa.

Querer quem foge e fugir de quem nos quer não é um destino. É um padrão. E os padrões podem mudar.

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